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Memórias do horror: bombeiro conta como foi o resgate na Serra Dona Francisca

24/03/2015

“É uma cena de horror do ponto de vista das perdas humanas porque você ver uma pessoa sem vida e acidentada é horrível. Você ver 50 pessoas é algo para que ninguém se prepara. Nem as equipes de socorro têm essa ideia de que hoje eu posso encontrar 50 pessoas em óbito. É um choque, uma tristeza muito grande que se percebia nas pessoas que estavam trabalhando, nas pessoas que chegavam ali. Era um sentimento de perplexidade porque as pessoas não acreditariam se não estivessem vendo a magnitude do fato, pela quantidade de pessoas, porque isso não é normal nem em um acidente com ônibus. Ele estava superlotado. Em um acidente de ônibus você espera encontrar, no máximo, 40 e poucas pessoas e não 59!".

A descrição acima é do bombeiro militar tenente Nauro Mück, 44 anos. Há duas décadas ele atua como bombeiro e jamais imaginou que participaria do resgate de 51 pessoas na Serra Dona Francisca. O oficial canoinhense trabalhava em Itapoá no sábado – pois o batalhão com sede em Canoinhas tem competência sobre os atendimentos por lá – quando foi avisado, por volta de 18h45min, que oito pessoas teriam morrido na SC-418.


Nauro chegou ao local quando a última pessoa com vida estava sendo retirada do ônibus para ser transportada pelo helicóptero Águia da Polícia Militar, às 19h30min. O trabalho de resgate dos 50 corpos exigiu o trabalho de quase duas centenas de pessoas. Eram 30 bombeiros, 40 policiais militares, 30 profissionais do Samu, membros da Polícia Civil, Defesa Civil, IGP, Auto Pista e dezenas de voluntários dispostos a ajudar. O acidente aconteceu às 17h30min. O trabalho de retirada dos corpos das ferragens foi até 1h30min. No domingo, ao removerem o ônibus, mais uma vítima foi localizada presa nos destroços do veículo.


Entre os mortos estavam 15 homens, 20 mulheres, cinco adolescentes e 11 crianças. “É muito triste tirar uma pessoa sem vida das ferragens, mas tirar um bebê em óbito é uma coisa que agride o ser humano. Nenhuma pessoa, por mais experiente que seja, se acostuma a ver crianças em óbito porque isso não é natural do ser humano. A natureza do ser humano é que pessoas idosas morram. Não é natural que uma criança morra. Então ninguém jamais está preparado para atender isso. Nem nos nossos acidentes aqui, que quando você atende uma criança é uma coisa que abala muito a equipe; e lá foram várias crianças. Eu até vi a cena do bombeiro retirando um bebezinho de colo e pensei em fotografar porque seria uma cena que chama atenção, mas trava. Pensei: não vou fotografar esta cena porque é uma cena que fica triste na memória de quem viu e sinceramente eu não quis registrar aquilo para que outras pessoas não viessem a se entristecer cada vez que olhassem aquela imagem. Essa é uma particularidade que torna mais lamentável um fato que já é lamentável: a perda de vida de crianças, especialmente de bebês de colo é uma coisa muito agressiva, muito triste”, conta Nauro.

Lições de uma tragédia


Do acidente é possível tirar algumas lições. Entre elas, o uso do cinto de segurança. É difícil saber se todos os passageiros usavam o cinto – afinal o veículo estava superlotado, mas de acordo com o tenente, ao ver o estado das vítimas e do próprio ônibus, mais pessoas poderiam ter sido salvas se estivessem com o cinto; especialmente quem estava sentado nas últimas poltronas, pois nem algumas janelas sequer se quebraram na parte dos fundos. “Tanto que parte dos sobreviventes estava atrás”. Outra lição é que as pessoas se certifiquem, ao contratarem uma empresa de turismo, de que ela tenha sido vistoriada e fiscalizada – e que também tenha carros reserva.

“Tivemos experiências positivas no acidente também como o excelente funcionamento do sistema de atendimento montado para o resgate e o voluntariado de dezenas de pessoas”, avalia. Por causa deste acidente, as instituições ligadas à segurança na região vão fazer um exercício simulado para articular o sistema de comando de operações. Ano passado, segundo Nauro, o Corpo de Bombeiros de Canoinhas realizou curso sobre comando de grandes operações como esta e agora pretende agregar demais instituições para que, em uma eventualidade, os profissionais saibam o que fazer. “Além disso, nós também temos um plano de emergência para acidentes ou desastres, como no caso de enchente”, lembra. Ainda não há data definida para a simulação. 


 




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