Tabagismo cresce em Santa Catarina e cigarro eletrônico preocupa
08/09/2026
Em Santa Catarina, o tabagismo voltou a subir e o avanço dos cigarros eletrônicos acendeu um alerta entre adolescentes e jovens neste ano, na passagem do Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto. O estado tem índices acima da média nacional, enquanto a procura por tratamento mostra que há gente tentando parar.
A pneumologista e coordenadora do Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo, Dra. Leila John Marques Steidle, diz que o Brasil reduziu significativamente o número de fumantes nas últimas décadas por causa de políticas públicas, campanhas de conscientização e ampliação das medidas de controle e tratamento. Mesmo assim, Santa Catarina segue acima da média brasileira: o consumo de cigarros convencionais atinge aproximadamente 9% a 10% da população adulta no país e chega a cerca de 13% no estado.
Depois de um longo período de queda, a prevalência do tabagismo voltou a crescer. Para a especialista, uma das explicações está na popularização dos dispositivos eletrônicos para fumar, sobretudo entre adolescentes e jovens. Pesquisas apontam aumento na experimentação desses produtos entre as novas gerações, e usuários de cigarros eletrônicos têm maior probabilidade de passar a consumir cigarros convencionais ou usar os dois produtos.
“A gente acredita que esse aumento da prevalência do cigarro que queima tenha como uma das portas de entrada o eletrônico, principalmente nos últimos três ou quatro anos.”
A médica também afirma que a nicotina tem alto potencial de dependência e que a experimentação não deve ser tratada como algo inofensivo. A dependência da nicotina não deve ser vista como simples “vício”, “hábito” ou falta de força de vontade. Trata-se de uma doença que pode exigir acompanhamento e tratamento especializado.
A própria forma como os especialistas nomeiam o problema vem mudando. Em vez de falar apenas em tabagismo tradicional, cresce a preocupação com o chamado “nicotinismo”, já que a substância passou a ser consumida por meio de diferentes dispositivos e formulações.
“No cigarro convencional, sintomas como tosse e pigarro costumavam acompanhar o início do consumo. Com os eletrônicos, essa percepção pode ser diferente, facilitando uma exposição elevada à nicotina.”
Entre as manifestações iniciais estão tosse frequente, maior produção de muco e infecções respiratórias recorrentes. A exposição às substâncias presentes nos cigarros eletrônicos prejudica os mecanismos naturais de defesa das vias aéreas. Pessoas com asma podem piorar, e quem não tem asma também pode ter mais risco de desenvolver problemas respiratórios.
Os efeitos não param nos pulmões. A nicotina também atua sobre os vasos sanguíneos e está relacionada ao aumento da pressão arterial e ao comprometimento da circulação, além de contribuir para o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Em quadros avançados de doença arterial, podem ocorrer complicações graves, inclusive amputações.
DPOC e câncer de pulmão estão entre as maiores preocupações ligadas ao cigarro. A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) inclui o enfisema pulmonar. Em estágios avançados, o paciente pode sentir falta de ar intensa, precisar de oxigênio e medicamentos inalatórios e ter internações frequentes por infecções, como pneumonia.
Agosto também é marcado pela campanha Agosto Branco, dedicada à conscientização e ao diagnóstico precoce do câncer de pulmão. Segundo a pneumologista, muitos pacientes procuram atendimento quando a doença já está em estágio avançado, o que reduz as possibilidades de tratamento. Para pessoas com maior risco, há estratégias de rastreamento, como a tomografia computadorizada de baixa dose de radiação, que pode ajudar a identificar alterações cedo.
Apesar da dificuldade para abandonar o cigarro, muitos fumantes querem parar. Leila relata que, em uma das chamadas de um projeto de extensão do qual participa, cerca de 100 pessoas se inscreveram em busca de tratamento. Embora o Brasil tenha assumido compromissos relacionados à prevenção e ao tratamento do tabagismo, a oferta de serviços ainda não é uniforme.
O tratamento não deve ficar restrito aos remédios. Também precisa incluir mudanças de comportamento e estratégias para ajudar o paciente a lidar com a dependência e manter a abstinência. Para quem nunca fumou, especialmente crianças, adolescentes e jovens, a orientação é não experimentar produtos com nicotina. Quem já desenvolveu dependência deve buscar ajuda profissional; pessoas com histórico significativo de tabagismo também precisam conversar com profissionais de saúde sobre os riscos do cigarro e sobre exames para diagnóstico precoce das doenças ligadas ao tabaco.
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