Lavar frutas e verduras corretamente reduz riscos dos agrotóxicos invisíveis
18/07/2025
O Brasil lidera um ranking alarmante: é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Em 2022, foram 801 mil toneladas utilizadas, quase o dobro das 468 mil registradas nos Estados Unidos, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). Esses produtos químicos, aplicados em larga escala na produção agrícola, muitas vezes permanecem nos alimentos consumidos diariamente pelos brasileiros.
Os riscos à saúde são inúmeros. Diversos estudos relacionam a exposição a resíduos de agrotóxicos a doenças graves como câncer, Alzheimer, Parkinson, problemas hormonais e distúrbios neurológicos. Crianças são especialmente vulneráveis, pois seu organismo ainda está em formação e elas consomem mais alimentos proporcionalmente ao peso corporal.
Mesmo sem alterar cor, sabor ou cheiro, esses resíduos estão lá — invisíveis aos olhos. “A presença de agrotóxicos só pode ser detectada por análises laboratoriais específicas”, explica Keliani Bordin, doutora em engenharia de alimentos e professora da PUC-PR. Por isso, a higienização correta de frutas e verduras é uma das poucas formas práticas de reduzir a ingestão dessas substâncias.
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De acordo com o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), da Anvisa, alimentos como laranja e abacaxi estão entre os mais contaminados. Mas a lista é extensa: alface, batata-doce, beterraba, cenoura, pimentão, tomate, uva e até arroz também apresentaram resíduos químicos em análises recentes.
A última edição do PARA avaliou 3.294 amostras em 76 municípios brasileiros. O resultado mostrou que:
37% não apresentaram resíduos detectáveis;
36,9% estavam dentro do limite máximo permitido por lei;
26,1% apresentaram alguma forma de irregularidade.
Os pesticidas mais encontrados incluem nomes como imidacloprido, clorpirifós, tiametoxam e cipermetrina — substâncias que não deveriam estar presentes em alimentos do cotidiano.
Lavar bem os alimentos é essencial, mas só a água corrente não basta. Existem métodos que aumentam significativamente a remoção dos resíduos químicos. Veja os mais recomendados:
Estudos apontam que o bicarbonato de sódio é um dos métodos mais eficazes para remover certos agrotóxicos da superfície dos alimentos. A médica nutróloga Eline de Almeida Soriano, da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), recomenda:
“Dissolva uma colher de sopa de bicarbonato em 1 litro de água e deixe as frutas e verduras de molho por 15 a 20 minutos. Depois, enxágue bem em água corrente.”
Indicada principalmente para desinfecção microbiológica, mas que também ajuda na remoção de alguns resíduos:
“Use uma colher de sopa para cada litro de água. Deixe os alimentos de molho por 15 minutos e enxágue bem”, orienta a dra. Eline.
Apesar de muito utilizado, o vinagre tem eficácia limitada. Ele atua mais contra bactérias do que contra agrotóxicos propriamente ditos. Caso deseje utilizá-lo:
“Dilua uma parte de vinagre para três de água, deixe os alimentos por 15 minutos e enxágue bem”, recomenda a médica.
Além da lavagem correta, alguns hábitos podem contribuir para uma alimentação mais segura:
Escovar alimentos de casca grossa: como batata, cenoura e maçã.
Alternar métodos: imersão em solução e lavagem com escova sob água corrente.
Descascar e cozinhar: reduz ainda mais os resíduos químicos.
Optar por orgânicos e alimentos da estação: são geralmente menos expostos a defensivos sintéticos.
Comprar de produtores locais: pequenos produtores tendem a usar menos agrotóxicos.
Um erro comum — e perigoso — é o uso de sabão ou detergente na limpeza dos alimentos. Produtos de limpeza doméstica não são indicados para o consumo humano e podem deixar resíduos tóxicos.
“Usar sabão ou detergente para lavar frutas e verduras é arriscado. Esses produtos não foram feitos para isso e não ajudam na remoção de agrotóxicos”, alerta a dra. Eline.
Apesar das orientações sobre a limpeza dos alimentos, o controle efetivo dos agrotóxicos deveria ser uma prioridade do poder público. Políticas de fiscalização, incentivos à produção orgânica e maior transparência na rotulagem são medidas fundamentais para reduzir o impacto da exposição da população a esses produtos.
O consumidor pode fazer sua parte — escolhendo, limpando e exigindo alimentos mais seguros —, mas é papel das autoridades garantir que o que chega à mesa esteja dentro dos padrões de segurança alimentar.
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